11 maio, 2008

 

Conjuntura


portuguesa

Portugueses não conseguem poupar e cortam despesas

http://www.bportugal.pt/publish/ind_conj/inconj_p.htm

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Confiança das famílias bate no fundo

RUDOLFO REBÊLO

Portugueses não conseguem poupar e cortam despesas

A situação financeira das famílias portuguesas é a pior de sempre - não conseguem poupar dinheiro, a tal ponto que as intenções para a compra de carro ou mesmo de simples electrodomésticos estão adiadas nos próximos meses, revelam os números publicados ontem pelo INE - Instituto Nacional de Estatística - (a série data de Junho de 1986). Receosos de um agravamento do desemprego e com o endividamento a crescer, não surpreende que a confiança na economia esteja também ao nível mais baixo desde 2003.

Já em Janeiro, o INE revelou que as famílias estavam a cortar nas compras de bens alimentares. Ontem, o inquérito referia que a intenção de compras de bens duradouros - como electrodomésticos ou equipamentos de lazer - está a aproximar-se do mínimo histórico surgido em Setembro último.

Com o desemprego ao nível mais elevado desde 1986, as famílias não acreditam que haverá mais emprego nos próximos meses. O número de desempregados parece estar a baixar, mas ainda não é suficiente para dar ânimo aos portugueses.

Acresce que o nível de endividamento, a subida das taxas de juro, a inflação e os baixos aumentos salariais estão a pressionar o poder de compra das famílias. Não é difícil compreender o "estado de alma" dos portugueses. Com as dívidas à banca a superar em 20% o rendimento disponível anual (salários e outros rendimentos, descontados os impostos) basta referir que as taxas de juro à habitação subiram 25% em 2007.

Com os consumidores a apertarem os cordões à bolsa, os comerciantes estão, também, desanimados, não vendo entrar dinheiro em caixa. Mais acima da cadeia comercial, a confiança dos grossistas na actividade económica atingiu o nível mais baixo desde 2006. Afirma o INE, que as "apreciações sobre o volume de vendas" dos comerciantes "também se agravaram" em Fevereiro em comparação com o inquérito do mês de Janeiro.

Em contrapartida, os industriais já estiveram mais pessimistas. Nos dois primeiros meses do ano a apreciação sobre a produção, bem como a referente à procura interna e externa, melhorou, o que não será alheio ao facto de as fábricas possuírem trabalho para as próximas 24 semanas.

A excepção parece ser a fileira representada pela indústria transformadora, que se queixa de uma ligeira quebra na procura, mantendo, no entanto uma produção assegurada de 11,3 semanas, em linha com a média do último ano.

Em termos gerais, relata o INE, a indústria admite mesmo uma melhoria da actividade para os próximos três meses.

DN, 1-3-2008
 
O MAL NÃO ESTÁ NOS POLÍTICOS. ESTÁ EM NÓS

João César das Neves
professor universitário
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Portugal está desanimado e todos os lamentos indicam a causa: os políticos não prestam. Quase se apalpa a desorientação e falta de liderança. As declarações públicas, muito variadas, partilham um elemento comum: ninguém faz ideia do rumo do País. Fala-se, propõe-se, sobretudo denuncia-se e critica-se, mas não se apresenta um objectivo claro e uma forma realista de lá chegar. No entanto, temos de o dizer, os políticos actuais não são piores que os anteriores. Por que razão estão tão perdidos?

O que mudou foi o País. Aliás, o drama actual é consequência do sucesso dos políticos. Depois dos terríveis choques da revolução de Abril e da adesão à Europa, as instituições portuguesas estabilizaram. Mas a calma fez regressar o pior da cultura lusa. Surgiram as classes instaladas, direitos adquiridos, interesses organizados. Voltámos à esclerose social que destruiu o tempo de D. Fernando, D. João III, D. Carlos e Afonso Costa. Mas a era da informação e globalização não se compadece com corporativismos, privilégios e condicionamentos industriais. Este é o busílis da questão que nenhuma força política se atreve a enfrentar.

O problema mais grave do País está no confronto entre contribuintes e grupos de interesse. Infelizmente essas duas forças diluem-se na sociedade, não são bem definidas e, em certa medida, coincidem. Mas através do Orçamento do Estado metade do produto nacional é retirada a uns para ser dada a outros. Esta redistribuição, em geral saudável e necessária, passou a incluir grandes desvios para actividades fúteis ou até nocivas. Burocracias, subsídios, bloqueios, estudos técnicos, funcionários inúteis, inspectores fanáticos, professores sem aulas, planos tecnológicos.

Como é óbvio, os interesses instalados instalam-se em primeiro lugar nos próprios partidos. No PCP chamam-se "sindicatos", no PP "classe média", no BE "povo", no PS e PSD chamam-se "forças vivas", mas são sempre os mesmos e todos querem a mesma coisa, manter as regalias que o sistema lhes dá.

O Governo e o PS, como antes o PSD, enchem a boca com as reformas, fizeram algumas e criaram conflitos. Mas nunca estiveram realmente convencidos da sua justeza. Após três anos concretizaram muito menos do que disseram. Vivem hoje um misto de embriaguez de poder e de temor da ressaca. Do PSD pode dizer-se o mesmo, hoje com mais ressaca que embriaguez. Ambos sacrificam as ideias aos cargos.

Igual simetria se vê entre o CDS-PP e o BE. Aí as ideias são sacrificadas às próprias ideias. Sempre indefinidos em termos ideológicos, já passaram por várias posições opostas. O PP foi liberal, democrata-cristão e conservador, pró e antieuropeu. O BE assume uma salganhada que vai do ecologismo ao trotskismo e ao maoísmo, sem sequer tentar a síntese. A diferença é que os populares anseiam, enquanto os bloquistas desprezam o poder. Mas o valor de ambos é a denúncia e a crítica, nunca a solução e a construção.

O PCP é um caso à parte, o único partido com ideias claras sobre o futuro. Só que as suas ideias são do passado. Há muito tempo que não as vêem e, pelo cheiro, começam a suspeitar que estejam fora de prazo.

Entretanto o Estado está totalmente absorvido consigo próprio e alheio às questões sociais. A administração passa a vida a olhar para o umbigo. É espantoso como as discussões e debates, reformas, políticas, medidas e discursos quase só têm a ver com funcionários e servidores públicos. Nunca se fala ou se lida com cidadãos ou utentes, a não ser para os acusar de evasão fiscal e violação de regulamentos.

O País, que defronta desemprego e globalização, atrasos na justiça e custos da saúde, confusão na educação e aumento da criminalidade, não vê ninguém que o inspire. Existe uma patente incapacidade das instituições para entenderem, quanto mais lidarem com a situação nacional. A democracia funciona e ainda podemos evitar o pior. Este não é um Estado falhado, como o rotativismo liberal ou a Primeira República. Mas é preciso perceber que o mal não vem dos políticos mas da esclerose.

DN, 3-3-2008
 
Ambiente e violência
preocupam portugueses

Os problemas ambientais, como a poluição, os incêndios e a destruição da camada de ozono, são uma das maiores preocupações dos portugueses, a seguir à violência.
Esta é a conclusão de um estudo do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa (ICS), após um inquérito realizado a 700 portugueses, entre 2003 e 2006.
Uma das investigadoras do projecto, Ana Delicado, do ICS,
disse à Lusa que, questionados sobre os riscos que mais temem, 24% dos portugueses apontam a violência, surgindo a seguir os problemas ambientais (21%).
A maioria dos portugueses (84%) considera que os riscos
ambientais tendem a aumentar no futuro, mas só pouco mais de metade (55%) tem o hábito de procurar informações sobre o assunto e 90,5 % nunca participou em acções de protesto perante riscos ambientais ou de saúde pública.
O inquérito mostra igualmente que a passividade generalizada dos portugueses face aos riscos ambientais tem a ver com falta de oportunidade, de tempo e a falta de informação.
Entre os que participam em movimentos cívicos, 36,3% optaram
por fazê-lo em manifestações e 22,6% através da assinatura
de uma petição ou abaixo-assinado.
Ana Delicado destacou que os portugueses preocupam-se mais com os riscos ambientais que afectam o planeta do que com aqueles que atingem as suas localidades.
Segundo a investigadora, incêndios e contaminação da água da torneira e dos alimentos são os problemas mais temidos localmente.
Este estudo acaba de ser publicado pela Imprensa das Ciências
Sociais - editora do Instituto de Ciências Sociais da Universidade
de Lisboa (ICS-UL) - com o título "Os Portugueses e
os Novos Riscos".

RRP1, 19-3-2008
 
POBRE PORTUGAL

Fernanda Câncio
jornalista
fernanda.m.cancio@dn.pt

Um relatório sobre 25 Estados membros da UE refere Portugal como tendo, no período de 2000 a 2004, um dos mais baixos rendimentos per capita - com 960 mil pessoas a viver com menos de 10 euros por dia - e maior desigualdade na distribuição de riqueza; um estudo de Alfredo Bruto da Costa, reputado especialista na matéria, certifica que pouco ou nada se tem evoluído no combate à pobreza, calculando que 46% da população passaram por esse estado entre 1995 e 2000. Parece pois lícito concluir que a democracia portuguesa falhou dois dos seus objectivos essenciais: promover a coesão social e melhorar o nível de vida.

Sucede que, estudando o tal relatório europeu que tanto alarme - justamente - desencadeou, a situação se complexifica. Desde logo, este admite que é difícil comparar países só com base em indicadores quantitativos do rendimento de cada agregado, já que os mesmos 10 euros compram na Polónia o dobro do que na Dinamarca (os dois extremos da escala, na qual Portugal está em 11.º), evidenciando surpresas na caracterização qualitativa da pobreza. Assim, menos de 5% da população portuguesa não têm acesso a uma refeição "decente" (com carne, peixe ou equivalente) cada dois dias. O mesmo sucede na Bélgica, enquanto no Reino Unido, Alemanha, França e Itália a percentagem ultrapassa os 6%. Serão 5% os portugueses que não conseguem pagar as contas básicas - contra 6/7% de belgas, finlandeses e franceses, e 10% de italianos -, e menos de 20% os que afirmam não estar em condições de assumir uma despesa inesperada, uma percentagem só ao nível da sueca, já que todos os outros membros apresentam valores superiores. E são 17%, ao nível da Alemanha e da Finlândia (dois dos países com mais alto rendimento per capita), os agregados que não conseguem ter carro, TV a cores, telefone, ou máquina de lavar, ou têm contas em atraso ou não acedem à tal refeição cada dois dias.

Dados europeus mais recentes acrescentam perplexidades: se Portugal tem, em 2006, uma taxa de pobreza (correspondendo ao número de agregados com cerca de 400 euros/mês/pessoa) de 18%, dois pontos acima da média da UE, está ao nível da Irlanda, três pontos abaixo da Grécia, dois pontos abaixo da Espanha e da Itália e um ponto abaixo do Reino Unido. Longe da Noruega, da Dinamarca, da Suécia e da Holanda (entre os 10 e os 13%), é certo. Mas sendo estes valores respeitantes aos rendimentos dos agregados após "prestações sociais" - ou seja, após pensões e subsídios -, há uma extraordinária constatação a fazer: antes dessas prestações, Portugal tem uma taxa de pobreza de 25%, igual à da França e inferior à da média da UE (26%), assim como da Irlanda (33%), da Noruega (30%) e da Finlândia e Suécia (29%). Por outro lado, se esta taxa desceu apenas dois pontos desde 1995, a outra desceu cinco pontos, de 23% para 18%, no mesmo período. Parece que a democracia, afinal, serve para alguma coisa - e que um país é tanto mais pobre quanto o quisermos pobre. Nada de novo, mas é sempre bom lembrar.

DN, 30-5-2008
 
ESTADO SOCIAL

João Miranda
investigador em biotecnologia
jmirandadn@gmail.com

Fala-se em crise, pobreza e desigualdade. Vital Moreira, Mário Soares e Manuela Ferreira Leite defendem mais redistribuição de riqueza. Mário Soares garante que a crise já está a afectar os pobres e a classe média. Os pobres e a classe média são os portugueses quase todos. Sobra um número reduzido de ricos. A crise, a pobreza e a desigualdade terão que ser resolvidas pela caça ao rico. Mas, em Portugal, o rico é um animal raro e fugidio. Por boas razões. A criação de riqueza é desprestigiante e perigosa. Ser rico não compensa o trabalho que dá enriquecer. A maior parte dos portugueses não quer pagar a riqueza distribuída pelo Estado. Quer recebê-la.

Vital Moreira garante que Portugal é um Estado Social com excelentes mecanismos de protecção dos mais desfavorecidos. Tem razão. Pelo menos do lado da despesa isso é verdade. O Estado gasta, sob os mais variados pretextos sociais, quase 50% da riqueza produzida pelos portugueses. Mário Soares diz que não chega. O subsídio de desemprego não chega, o rendimento mínimo não chega, as pensões e complementos de reforma não chegam. Os sistemas de saúde e de educação gratuitos e igualitários não chegam. Os pobres e a classe média precisam de mais. A crise é cada vez pior e quase ninguém lhe escapa. Manuela Ferreira Leite até conseguiu descobrir aquilo a que chamou os "novos pobres", pessoas que se passaram recentemente do lado dos contribuintes para o lado dos potenciais beneficiários do Estado Social.

Todos concordam que o Estado Social é insuficiente. Os "novos pobres" precisam de novos mecanismos de combate à pobreza porque os que custam todos os anos metade do PIB não chegam. Precisamos, portanto, de mais Estado Social. Precisamos, sobretudo, de quem o pague. Gente para receber já cá temos de sobra. Precisamos de obrigar os raros portugueses que são produtivos e empreendedores a pagar mais impostos para sustentar um Estado Social mais avançado. Temos que o fazer rapidamente, antes que eles emigrem.

DN, 31-5-2008
 
Portugal está a viver acima das suas possibilidades

RUDOLFO REBÊLO

Previsões da OCDE. Economia portuguesa deverá crescer 1,6% em 2008, com as famílias a reduzirem o consumo de bens. Desemprego, endividamento e taxas de juro impedem a recuperação e comércio externo deverá ser afectado por mau desempenho dos parceiros comerciais

Poupança das famílias cai pelo quarto ano

Portugal vai empobrecer ainda mais, prevê a OCDE. Já este ano, em resultado da crise, as poupanças das famílias baixam, pelo quarto ano consecutivo, enquanto a escalada da inflação para 3% "come" grande parte dos rendimentos. O desemprego afectará quase 8% dos portugueses, o que ajuda a explicar uma travagem nas despesas com as compras.

O país continuará nos próximos anos a viver acima das suas possibilidades, sendo a segunda nação entre as 33 filiadas na OCDE, a seguir à Grécia, com o maior défice externo. Ou seja, Portugal consome mais do que produz.

Contas feitas, a economia portuguesa cresce 1,6% este ano, uma forte revisão em baixa face aos 2% esperados pela organização em Dezembro do ano passado. Este ano, a economia cresce abaixo da Zona Euro, mas em contrapartida deverá registar melhor desempenho do que a área euro em 2009. E sem grandes públicas irá continuar a divergir da Europa.

A estimativa da OCDE está em linha com as recentes previsões do Governo (1,5%), com a actividade a ser afectada pela travagem no consumo das famílias, do investimento e das exportações, diz o relatório, ontem divulgado em Paris.

Este ano, o consumo cresce apenas 1,4%, com as famílias endividadas -a dívida aos bancos ultrapassa em quase 30% o rendimento anual dos portugueses, segunda dados do Banco de Portugal - a sofrer efeitos da alta das taxas de juro.

Acresce que os banqueiros - com dificuldades em captar dinheiro fora do país - estão a restringir a concessão de empréstimos às famílias. Aliás, diz a OCDE, a crise de liquidez e o aperto nas condições de concessão de créditos podem "moderar" os gastos com o investimento.

O contributo do comércio externo para o crescimento da economia será negativo, já que as importações deverão crescer acima das exportações. A razão é simples: o comércio português deverá sofrer com a forte travagem da economia espanhola.

O relatório da OCDE indica que a economia do país vizinho deverá crescer apenas 1,6%, em comparação com uma expansão de 3,8% em 2007. O drama é que o ritmo de crescimento das importações do país vizinho deverá cair 45,4%, uma vez que o consumo das famílias espanholas está em forte desaceleração e o investimento estagnou. E 28% das exportações portuguesas dependem de Espanha.

Apesar do fraco desempenho da economia, o défice orçamental deverá manter uma trajectória de redução. Mas, diz a OCDE, o corte de um ponto no IVA vai abrandar o ritmo de consolidação orçamental nos próximos dois anos.

DN, 5-6-2008
 
PASSAR 30 DIAS A FAZER CONTAS À VIDA

Kátia Catulo
texto

Famílias inventaram novas fórmulas para ultrapassar a crise

Cada dia tem uma aritmética diferente. Carlos e Maria Emília Carvalho usaram os lucros obtidos na noite anterior com o Café Pedra Nova para saldar as contas em atraso do telefone e da electricidade. Pedro e Madalena Lopes esperaram pelo subsídio de Natal para comprar os casacos de Inverno aos miúdos. Ana Maria Duarte desistiu das férias para pagar o seguro e o selo do automóvel. Leonor e João Caetano esperaram pela devolução do IRS para adaptar os dois carros a gás. Em qualquer uma destas quatro famílias da classe média, a gestão da economia doméstica é um exercício diário de subtrair de um lado para remendar do outro.

Nenhum deles tem muita prática neste jogo de números, contas e cálculos. Não foi há muito tempo que tiveram de inventar outras fórmulas matemáticas para ultrapassar os apertos financeiros. Todos eles ainda se recordam do exacto momento em que surgiram as preocupações com o que podiam gastar e o que não podiam comprar. "Em 2001 sentimos o primeiro impacto da crise", conta Carlos Carvalho. A partir daí nunca mais recuperaram. "Gostaríamos de voltar ao mesmo nível de vida de há oito ou dez anos, mas tão cedo isso não será possível", desabafa Madalena Lopes.

Carlos e Maria Emília sempre viveram no Porto; Pedro e Madalena moram com os três filhos em Setúbal; Ana Maria arrendou uma casa em Queluz depois do divórcio e Leonor e João mudaram-se para Leiria com duas crianças - todos eles tiveram de descer de patamar e adaptar-se a novos hábitos de consumo. Riscaram da lista tudo aquilo que não faz assim tanta falta, mantiveram o que é indispensável e substituíram qualidade por preços mais em conta.

Prensas e rotativas paradas

Durante 30 anos, a família Carvalho nunca se preocupou em esticar o salário até ao fim do mês porque as máquinas da tipografia de Carlos não descansavam nem ao fim de semana. O tipógrafo vivia encafuado na sua oficina a remendar páginas carcomidas pelos insectos, encadernar livros antigos, restaurar edições valiosas guardadas nas bibliotecas, expostas nos museus ou arquivadas nas câmaras municipais. "Trabalhava para toda a área metropolitana do Porto, mas isso deixou de acontecer do dia para a noite."

O tipógrafo do Porto foi a primeira vítima dos "cortes orçamentais" que as instituições públicas adoptaram a partir de 2001. "Hoje tenho clientes que não me pedem nada há mais de três anos." E outros que solicitam orçamentos, mas depois dizem não ter verba para pagar. Na Tipografia Carvalho, os livros restaurados amontoam-se à espera que os donos os venham buscar; e os poucos que ainda lhe encomendam trabalho, pagam-lhe às "gotas" no final de cada mês.

Carlos só não fecha a oficina porque acredita que as prensas e as rotativas não vão ficar paradas para sempre: "O espólio continua a existir e quando as autarquias tiverem outra vez dinheiro, o trabalho vai voltar." Mas não se pode esperar por dias melhores de braços cruzados. Viver apenas com o salário de Maria Emília (860 euros) passou a ser mais difícil do que gerir uma empresa na bancarrota. "Em 2005, as coisas tornaram-se muito difíceis", conta a auxiliar de enfermagem do Hospital de São João.

O casal tomou então a decisão de abdicar das poupanças para abrir um café no centro da cidade do Porto. Pedra Nova é o habitual poiso dos estudantes da Escola Superior de Teatro e Artes do Espectáculo, mas as cervejas e os petiscos que os miúdos consomem até às duas ou três da madrugada continuam a ser insuficientes para a família Carvalho se desembaraçar dos problemas financeiros: "O café dá para comer e não ter de pensar nas despesas com a nossa alimentação", explica marido.

Mas planear cada semana continua a ser um quebra-cabeças que Carlos e Maria Emília têm de resolver todos os dias. As despesas "supérfluas" foram eliminadas para se poder liquidar as contas que vencem no final de cada mês. Deixaram de ser sócios da Deco - Associação de Defesa do Consumidor - acabaram com as idas semanais ao cinema e reduziram para mais de metade os dias de férias. "Também não compro livros há seis anos. Nem sequer entro numa livraria para não me sentir tentado", confidencia Carlos. Mesmo assim, há alturas em que as contas de luz, gás ou telefone ficam por pagar: "A única despesa fixa que pagamos dentro do prazo é a prestação da casa, porque sabemos como os bancos são implacáveis", explica Maria Emília.

Ouro e prata em queda livre

Em tempos de crise, os dotes de Pedro Lopes são também os primeiros a serem dispensados. O ourives de 46 anos trabalha por conta própria e ao longo das últimas décadas construiu a sua rede de clientes por toda a península de Setúbal. Restaura e limpa fios, colares, pulseiras ou brincos de ouro e prata para dezenas de empresas, mas o negócio tem decaído de ano para ano: "Esta é uma actividade que deixa de ser lucrativa assim que as pessoas sentem a recessão no bolso."

O rendimento de Pedro caiu a pique e o salário que Madalena ganha como administrativa na Universidade Aberta (980 euros) já não chega para gerir um apartamento com três filhos de 11, 17 e 24 anos. Decidiram então fazer os primeiros ajustes. Colocaram lâmpadas de baixo consumo em todos os candeeiros e abatjours, desistiram do canal Disney da TV Cabo, tomam banhos cronometrados ao minuto, adaptaram o autoclismo para meia descarga, passaram a abastecer o carro num posto de combustível de Palmela, para poupar nove cêntimos por litro. E mesmo assim, não foi suficiente.

De cada vez que o casal faz "contas à vida", acaba por concluir ser necessário suprimir mais uma despesa. Os iogurtes passaram de hábito diário para privilégio de fim-de-semana; os produtos de marca branca são os que estão em vantagem na despensa da família. "Os bifes não entram nesta casa há mais de um ano e o peixe fresco foi substituído pelo congelado", explica Madalena. As mudanças continuaram a alastra-se a outras rotinas. "Costumávamos almoçar ou jantar fora duas vezes por semana, mas agora isso só acontece em dias muito especiais." Quando pensaram que já não tinham mais por onde cortar, tiveram de tomar outra difícil decisão no início deste ano: "Chegámos à conclusão que não conseguimos pagar as explicações de matemática do nosso filho mais novo", conta a mãe de 42 anos. Mas esta é a única forma do casal de Setúbal ter as despesas controladas. Isso não implica no entanto que, a qualquer momento, as contas possam descarrilar. Basta um imprevisto: "Se a máquina de lavar roupa se avariar, não tenho como mandar arranjá-la. Nem consigo pensar o que seria ficar mais de uma semana sem ela", desabafa entre risos Madalena.

E até aquelas despesas que só surgem uma vez por ano são suficientes para desorganizar as finanças da família: "Para podermos pagar o IMI [Imposto Municipal sobre Imóveis ] e o seguro do carro em Abril tivemos de pedir um empréstimo ao nosso filho mais velho." Felipe, que trabalha numa farmácia, foi este ano a salvação da família. Pedro e Madalena terão de esperar pelo subsídio de férias para saldar a dívida e guardar o que sobra para comprar os óculos que Ana Teresa, a filha do meio, vai passar a usar para ver ao longe.

Despesas sob controlo

No apartamento que Leonor e João Caetano compraram no centro de Leiria, as despesas são também calculadas até à centésima. O casal consegue, no entanto, manter as contas controladas à custa de "esquema de sobrevivência" que cumpre à risca. Assim que o salário de ambos é depositado no banco, transferem para uma conta separada todo o dinheiro que irão precisar para as prestações da casa e dos carros, o infantário do filho de três anos, as vacinas do bebé de três meses, as contas da água, luz, gás ou alimentação. "Só assim ficámos a saber qual é a margem de manobra que temos para cada mês", explica Leonor, que juntamente com o marido trabalha numa empresa de moldes na Marinha Grande.

Como essa "margem" é quase sempre nula, viram-se obrigados a introduzir algumas mudanças no quotidiano familiar. João abdicou da sua "paixão" e vendeu a mota; Tomás, o filho mais novo, deixou o infantário privado e passou a frequentar um centro público de Actividades de Tempos Livres (ATL), permitindo aos pais poupar 140 euros. Os juros da habitação subiram 90 euros no último ano e o casal optou por renegociar o empréstimo bancário, reduzindo a prestação de 380 para 290 euros.

A grande valia de Leonor e João, ambos com 32 anos, não está apenas na facilidade que têm em reajustar o estilo de vida aos ciclos da crise económica, mas sobretudo na sua vocação para saber cortar os gastos naquilo que parece insignificante. Diminuíram, por exemplo, um grau no aquecimento central do seu apartamento e passaram a poupar 15 euros por mês. Compraram um fogão por indução - electrodoméstico que utiliza só o calor necessário para cada cozedura - e reduziram em 40% a energia em relação aos fogões eléctricos. Usaram o dinheiro da devolução do IRS para adaptar os dois carros a gás e baixaram para metade as despesas nas deslocações: "Costumávamos gastar 300 euros em gasolina e só fazíamos as viagens entre casa e trabalho e alguns passeios aos fins-de-semana", explica João. Desde a mudança para o GPL, em Setembro de 2006, as contas nunca mais ultrapassaram os 150 euros: "Hoje, com 22 euros conseguimos percorrer 400 quilómetros."

As compras são rotinas semanais igualmente estudadas ao detalhe. No supermercado João e Leonor não se deixam seduzir pelas promoções. "Na maioria das vezes são falsas", avisa o marido. Para saber se não estão a cair no conto do vigário calculam o preço em função do peso do produto. Foi assim que concluíram, por exemplo, que mais vale dar cinco cêntimos por uma lata de oito salsichas porque sai mais barato do que levar uma com seis unidades. "São essas pequenas coisas que nos ajudam a não ter muitas preocupações mas, apesar destes esforços, não conseguimos fazer poupanças."

Um dia de cada vez

Administrar as economias domésticas é tarefa fácil para Ana Maria Duarte: "Não há nada que saber." Metade do salário que ganha como secretária da administração de uma empresa de informática em Odivelas vai para a renda de uma casa que arrendou em Queluz (Sintra). "O resto serve para pagar a alimentação e as despesas com luz, gás e água." Feitas as contas no princípio de cada mês, não resta mais nada para gastar. "O que vale é que não tenho de me preocupar com a prestação do carro que já está pago e não contraí nenhum empréstimo com a habitação."

Gerir as contas ao longo de 30 dias passou a ser muito mais difícil desde o divórcio, porque tem agora de suportar sozinha todos os encargos da casa: "Só as despesas que tenho com as minhas duas filhas é que são partilhadas com o meu ex-marido." E por isso, as ajudas são bem- -vindas. As amigas de Ana Maria oferecem as roupas para as filhas de 10 e 11 anos, mas nem sequer é no vestuário que esta mãe de 41 anos sente a subida dos preços. "Os bens essenciais como pão, leite, gasolina ou fruta é que estão cada vez mais caros." Há pouco mais de um mês gastava 20 euros por semana na gasolina e recentemente teve de subir as fasquia para 30 euros.

As contas com o combustível poderão disparar a partir de Julho, altura em que a empresa onde trabalha irá transferir-se de Odivelas para Miraflores, no concelho de Oeiras. Mas Ana Maria irá deixar essa preocupação para mais tarde porque desde o divórcio não faz planeamentos a médio prazo: "É impossível saber hoje como vou desenvencilhar-me amanhã." Viver um dia de cada vez é a sua regra.

Cada mês do ano é portanto uma espécie de combate de boxe em que as família usam todo o talento para não se estatelarem no chão. Por enquanto, ainda vai sendo possível chegar inteiro ao fim de cada round: "Não nos consideramos pobres porque ainda conseguimos viver com o nariz fora de água", explica Carlos Carvalho. Mas, por mais que se esforcem, as vitórias que celebram a cada 30 dias acabam por saber sempre a derrotas: "Chegamos ao fim do mês sem nada", resume Madalena Lopes.

DN, 7-6-2008
 
Economia está a arrefecer há sete meses consecutivos

RUDOLFO REBÊLO

Banco de Portugal e INE traçam cenários pessimistas
Actividade económica ao nível mais baixo desde Novembro de 2003
A economia portuguesa voltou a desacelerar em Maio, pelo sétimo mês consecutivo, com os gastos das famílias e das empresas em consumo de bens a abrandarem. O que já sucede há oito meses, de acordo com indicadores avançados, ontem divulgados pelo Banco de Portugal.

Os dados do banco central - que agregam o andamento do PIB, vendas do comércio a retalho, cimentos, veículos pesados e produção da indústria transformadora - revelam que a actividade económica terá crescido apenas 0,4% em Maio deste ano, em comparação com o mesmo mês do ano passado. Trata-se do valor homólogo mais baixo desde Novembro de 2003.

O consumo das famílias terá aumentado 0,5% em Maio, face ao mesmo mês do ano passado, mas está a decrescer ao longo dos últimos meses, atingindo o valor mais baixo desde Setembro de 2003, o que está em linha com a quebra da confiança das famílias e dos industriais nos últimos três meses terminados em Maio.

Já em Abril, o consumo das famílias portuguesas, a braços com taxas de juro mais elevadas e aumentos dos preços dos bens, terá estado em desaceleração, a avaliar pelos dados também ontem divulgados pelo INE, na síntese mensal de conjuntura. Os lojistas confirmam uma quebra nas vendas, com os consumidores a cortarem na factura com o consumo alimentar e não alimentar. Em Maio, o "clima económico agravou-se ligeiramente", com a confiança dos industriais e comerciantes a registarem quedas.

Investimento

O investimento aumentou em Abril, interrompendo "a forte diminuição observada nos três meses anteriores". Mas este ressurgimento deveu-se, segundo o INE, sobretudo à construção - que representa cerca de 50% do total -, com os construtores a relatarem um aumento significativo de encomendas de obras em carteira . De tal modo que atingiu em Maio o máximo desde final de 2002.

"As vendas de cimento voltaram a diminuir mais intensamente", embora "as vendas de varão para betão continuem a recuperar", ressalva o relatório do INE. O que deixa em aberto se a recuperação do investimento em construção é sustentável, já que, ainda por cima, "o indicador de máquinas e equipamentos, disponível até Maio, abrandou ligeiramente nos dois últimos meses".

No comércio externo, os indicadores são, para já, contraditórios. Para Maio, os industriais referem uma deterioração das encomendas com origem externa. Mas, em Abril, as exportações, nominais, cresceram 6,5% face ao mesmo mês do ano passado, enquanto as importações aumentaram 14,2%, de acordo com as primeiras estimativas para o comércio externo.

DN, 21-6-2008
 
Portugueses são os mais preocupados com o futuro

Apenas 15% acha que a vida vai melhorar, segundo dados da UE

Número de inscritos nos centros de emprego baixou em Maio

Os portugueses são os mais pessimistas da União Europeia quanto ao seu futuro próximo. Apenas 15% acreditam que a vida vai melhorar nos próximos 12 meses, de acordo com dados do "Eurobarómetro" da Primavera, realizado entre finais de Março e finais de Abril, e divulgados ontem pela Comissão Europeia.

Assim, face aos seus parceiros da UE a 27, os portugueses são os que tem piores perspectivas sobre o que vai ser a sua situação de vida, em termos gerais, bem como a do seu agregado familiar nos próximos 12 meses. Aliás, relativamente à situação do agregado familiar, os optimistas são ainda em menor número. Apenas 11% (também o valor mais baixo da União, onde no conjunto há 22% de optimistas), acredita que esta poderá evoluir positivamente. E quando convidados a antever a sua situação económica e de emprego as expectativas também são as mais baixas.

Só 8% acredita que o emprego pode melhorar, um resultado bem abaixo da média comunitária de 21%. Ainda assim, neste capítulo, ficamos à frente da confiança manifestada por húngaros (5%) e gregos (7%).

Comparando os resultados deste inquérito com os da anterior consulta, realizada no Outono de 2007, verifica-se ainda uma quebra na confiança dos cidadãos nacionais.

O desemprego é mesmo a principal preocupação dos portugueses, porque 49% dos inquiridos colocam-na no topo da lista, caso único, aliás, entre os parceiros da UE a 27. A seguir vem a subida dos preços (para 42%). Por fim, questionados sobre as expectativas quando à situação económica do país nos próximos 12 meses, apenas 1 em cada 10 portugueses (10%) acredita que vai haver uma melhorar. Em Portugal, esta consulta foi levada a cabo, pela TNS Euroteste.

Desemprego cai

Em Maio, o número de desempregados registados nos centros de emprego do Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) situou-se nos 383 357 o que representa uma quebra de 3,6% face a período homólogo e uma redução de 0,8% face a Abril, anunciou ontem aquele organismo. Assim, no mês passado, estavam inscritas nos centros de emprego menos 14 125 pessoas, do que em Maio de 2007 e menos 2 984 do que final de Abril último.

O desemprego de longa duração - o que abrange pessoas inscritas há mais de um ano - representava 40,7% do universo total. Mesmo assim, o número de desempregados de longa duração sofreu um decréscimo de 6,5% em termos homólogos, enquanto o de curta duração retrocedeu 1,5%.

DN, 25-6-2008
 
O ano das "contas furadas"

JOÃO PEDRO HENRIQUES

Estado da Nação. Há um ano, José Sócrates não imaginaria o cenário: choque petrolífero a doer; crise financeira em pleno. A maioria PS chega à recta final da legislatura no pior dos cenários económicos. As bolsas apertam e a contenção orçamental sabe a pouco. Hoje, o Parlamento vai discutir de quem é a culpa

O plano era simples - e nada original, por sinal. Funcionaria assim: nos dois primeiros anos José Sócrates forçaria o País a apertar o cinto, em nome da contenção das contas públicas; nos dois últimos anos desapertaria o cinto, nomeadamente baixando os impostos.

A parte da consolidação orçamental correu genericamente bem (até Manuela Ferreira Leite já reconheceu o "mérito" do Governo na redução do défice). Em Março, José Sócrates deu um pequeno sinal do desafogo que poderia aí vir, baixando a taxa máxima do IVA em um por cento (de 21 para 20 por cento). Entusiasmado, em Outubro de 2006 o ministro da Economia, Manuel Pinho, já tinha avançado: "A crise acabou."

Viu-se. Em 20 de Maio, na RTP1, no seu comentário político semanal, António Vitorino, figura de topo no "baronato" socialista - só não foi líder porque não quis - constatou uma evidência: "As contas saíram furadas ao Governo." O Executivo planeava "fazer reformas na primeira metade da legislatura", apostar na "consolidação das contas públicas", para depois, na segunda metade, actuar em cenário de "crescimento económico".

O choque petrolífero e o agravamento da crise do subprime baralharam completamente as contas a José Sócrates. Há pouco mais de um mês, a "crise" - palavra que o Governo já começou a assumir, embora a custo - atingiu um pico de dramatismo: pequenos e médios camionistas organizaram um bloqueio nacional que deixou à míngua muitas bombas de gasolina e esvaziou muitas prateleiras de supermercados.

Hoje, o Parlamento debaterá, pela penúltima vez nesta legislatura, o Estado da Nação. A "crise" dominará todas as intervenções.

No essencial, o plenário dividir- -se-á entre os que consideram que o Governo tem culpas na "crise" e a subavaliou (toda a oposição); e os que acham que a "crise" é inteiramente importada, sendo que Portugal, devido à contenção orçamental, até estará agora melhor preparado do que há três anos, quando Sócrates iniciou funções.

Evidentemente, espera-se que a grande batalha da nova liderança do PSD - obter as análises custo-benefício para o pacote das grandes obras públicas - tenha mais um episódio. Para o PSD, o Estatuto da Oposição não está a ser respeitado; já o Governo e o PS afirmam, por um lado, que os estudos existem e, por outro, querem saber que obras o PSD cortaria, afirmando, por exemplo, que uma das novas auto-estradas previstas servirá Bragança, ou seja, o desenvolvimento do interior do País. Sócrates já pediu "coragem" a Manuela Ferreira Leite para dizer que obras quer congelar.

O primeiro-ministro estará também condicionado pelo documento em que a SEDES o acusou de estar a governar com olhos postos nas eleições. O principal subscritor é um seu ex-ministro, Campos Cunha. Pode ser que aqui a esquerda o ajude argumentando que o documento é liberal no essencial das propotas.

DN, 10-7-2008
 
Empresas pessimistas com economia

ANA TOMÁS RIBEIRO

Relatório AIP.

A esmagadora maioria dos patrões que responderam ao inquérito anual da AIP classifica de "má" ou "muito má" a conjuntura económica actual. Apesar disso, e do crédito cada vez mais difícil, prevêem manter os postos de trabalho e prometem investimentos para este ano
A esmagadora maioria das empresas portuguesas consideram que a actual conjuntura económica do País é muito má e perspectivam dias ainda piores para os próximos tempos. É o retrato negro traçado pelo inquérito anual realizado pela Associação Industrial Portuguesa (AIP), que hoje será divulgado.

De um universo de 1260 empresas abrangidas pelo inquérito, que engloba associados da AIP, mas também de outros sectores de actividade além dos industrial, 88% classificou de "má" ou "muito má" a actual situação económica (mais 23 pontos percentuais do que no inquérito de 2007". E apenas 11% considerou a conjuntura que atravessamos é "normal". Além disso, 69% estima que a situação económica em 2008 será "pior ou muito pior" do que em 2007. E apenas 25% admitem que poderá ser igual à do exercício anterior.

Apesar disto, a maioria das empresas inquiridas avalia de forma positiva a sua situação financeira e 59% delas tem intenção de realizar investimentos, no decurso deste ano, superiores aos de 2007. Do que os empresários se queixam é das crescentes dificuldades no acesso ao crédito. Cerca de 20% das que recorrem a empréstimos bancário acham que o acesso ao dinheiro está mais difícil. Uma dificuldade, menos sentida, contudo, pelas grandes empresas.

Ao mesmo tempo, o dinheiro também se tornou mais caro. A maioria (63%) afirmam estar a pagar taxas de juro num intervalo entre 5% e 7,5%, uma situação só semelhante à registada em 2001, conclui o inquérito à actividade empresarial da AIP, que é realizado desde 1995.

Quanto à procura, as perspectivas de evolução para este ano são negativas no mercado interno e mais favoráveis no mercado externo. O atraso nos pagamentos por parte dos clientes é que se mantém um problemas cada dia mais grave (ver caixa).

Emprego mantém-se

Uma fatia de 55% das empresas prevê manter os seus postos de trabalho em 2008. Mas a diferença entre as que prevêem aumentar (19%) o emprego e as que prevêem diminuir é negativa em sete pontos percentuais.

Quanto a investimentos, 52% dizem que os fizeram em 2007 e 59% promete fazê-lo ao longo de 2008. Esta percentagem aumenta de acordo com a dimensão das empresas. Das grandes, 82% dizem que vão realizar investimentos este ano.

No geral, em 2008 há uma maior aposta nas áreas da internacionalização , marketing, formação profissional, investigação e desenvolvimento e qualidade. Ao contrário, a percentagem das que vão investir em substituição de equipamentos baixou oito pontos percentuais. Mas o valor dos investimentos a realizar será mais baixo. A percentagem de empresas que prevêem um aumento do valor de investimentos em 2008 face a 2007 baixou de 51% para 40%. A percentagem é maior entre empresas que exportam.

DN, 10-7-2008
 
O ESTADO DA NAÇÃO

Maria José Nogueira Pinto
jurista

É assim que se designa o último grande debate parlamentar antes de deputados e governantes irem a "ares". Uma designação promissora que - aprendi-o quando fui deputada e líder parlamentar - não corresponde às expectativas.

É apenas um nome pomposo para um debate igual a todos os outros, com o Governo a dizer que governa e a oposição a falar de desgoverno. Mas a um ano das eleições, com o País arrastado por uma tripla crise global, integrado numa União Europeia à deriva, revelando definitivamente as suas debilidades endógenas, sem arcaboiço nem defesas próprias, este debate podia e devia ir mais fundo.

O Governo de Sócrates iniciou uma série de medidas reformistas necessárias e oportunas. Em dado momento, porém, desmobilizou-se, confundiu-se, hesitou e arrepiou caminho. Ora, não existe nada pior que meias reformas. Se na primeira fase o primeiro-ministro usou de arrogância na imposição das suas certezas absolutas sobre Portugal e os portugueses, a seguir teve medo da rua, da organicidade das vozes discordantes, dos sinais públicos do descontentamento e da sua massificação. De cada vez que se sentiu ameaçado deu um salto à televisão para debitar o seu cativante monólogo. Uma receita que começa a não surtir efeito...

Mas também é verdade que, até agora, as oposições parecem não se ter dado ao trabalho de monitorizar este zelo reformista.

Nem sei se se deram conta do momento exacto em que, entrando em profunda contradição, Sócrates deu o golpe de misericórdia na reforma da Saúde; ou de como a tão propalada reforma da administração pública estagnou para morrer na montra do Simplex; ou por que razões mil medidas na Educação não mudam substantiva e qualitativamente o facto de o sistema não educar nem preparar, geração após geração; ou de como as políticas públicas de combate à pobreza e à exclusão se mantiveram, ao longo destes três anos, na linha de uma desastrosa solidariedade do silêncio e da dependência; ou de como a Justiça, estando fortemente doente, decerto não se curaria apenas com mais um pacote legislativo.

Bastava um olhar pelos indicadores de 2007 para se perceber que a classe média, entre o aumento do desemprego, a queda dos salários, os aumentos da taxa de juros e os níveis de endividamento das famílias estava pronta para ir por água abaixo ao primeiro abanão. Acaso não sabemos, todos, que nem sequer dependem de nós muitos dos pressupostos em que assentava a previsão do nosso crescimento económico?

Neste debate, o Governo apresenta-se com uma mão-cheia de nada. É provável que cometa o erro de a enluvar numa pelica fina de sobranceria zombeteira e de cair na tentação de disparar, em sua defesa, uma catadupa de medidas avulsas, entre IVA, IRS e IMI, mais uns pós de subsídios, como cordas esfiapadas lançadas a quem se afoga. Podia antes, mas julgo que não será capaz, adiantar-se a este pingue- -pongue inglório e apresentar já as opções políticas que a elaboração do Orçamento de 2009 exigirá. Percebe-se que nesta curva descendente em que tudo se tornou questionável, até aquele pequeno tributo à vaidade que foi o "Tratado de Lisboa", o discurso da modernidade seja mais apetecível que o discurso de salvação nacional. O primeiro só requer uma película de verniz brilhante e a miríade das grandes obras públicas que funcionam como uma aspirina para disfarçar uma febre infecciosa. O segundo punha tudo em questão...

Quer se veja a Nação como um grupo de homens unidos por um vínculo natural e, portanto, existente ab immemorabili, constituindo-se como base necessária para a organização do poder político, ou como a "vonta- de de viver juntos", o certo é que seria essencial saber da sua saúde, do seu estado anímico, dos seus medos e das suas expectativas. Levar para o Parlamento, neste debate, o "plebiscito de todos os dias" pode também ser a derradeira oportunidade para o tirar da rua. Porque à falta de foro mais eficaz será na rua que o desencanto, primeiro, e o desespero, depois, levantarão as suas barricadas.

DN, 10-7-2008
 
A NAÇÃO E A PRÓXIMA CRISE CÍCLICA

António Perez Metelo
Redactor principal

Consultemos os ecos que a evolução económica e social de Portugal, por acção ou omissão do Governo, tem tido nos últimos meses lá fora, junto de organizações internacionais. O exercício é útil, já que esses observadores permanentes da realidade nacional nunca se deixam apanhar pelas paixões partidárias internas. Há quatro domínios nos quais a Comissão Europeia ou a OCDE, o FMI ou o Forum Económico Mundial convergem a dar nota positiva ao desempenho dos portugueses: a queda do défice público é a mais rápida e profunda dos programas de estabilização levados a cabo por países europeus nas últimas décadas; a estabilização das contas da Segurança Social permitiu retirar já o País do grupo de alto risco, ingressando-o no pelotão dos congéneres europeus mais abastados, o do risco médio; a aposta na expansão das energias alternativas no último triénio é a mais forte no espaço europeu; e o investimento na ciência e tecnologia, nas tecnologias da informação e comunicação, no governo electrónico, na informatização dos serviços públicos e na introdução acelerada das novas tecnologias no tecido empresarial atiraram o País para o grupo dos países europeus mais avançados, nos quais tudo isto já foi feito há mais tempo. Ao avaliar o " Estado da Nação" em meados de 2008, estes ganhos recentes deviam figurar na coluna dos activos incontroversos. Mas é claro que eles não chegam. Se o endividamento do Estado já está a descer e as empresas ainda não dão sinais de falta de meios financeiros por restrições ao acesso ao crédito, as famílias estão cada vez mais endividadas, o que se transforma num forte travão ao consumo em tempos de subida das taxas de juro. A vulnerabilidade da economia nacional aos choques externos sente-se na queda brusca das encomendas feitas de fora às exportações nacionais e na capacidade limitada de atrair investimento directo estrangeiro em época de desconfiança financeira generalizada.

E, acima de tudo, o sentimento generalizado de que as coisas não vão melhorar tão cedo baseia-se no facto de a competitividade insuficiente das empresas nacionais nos ter impedido de aproveitar o balanço de crescimento da economia europeia na fase ascendente do ciclo económico entre 2003 e 2007. É o preço da reestruturação produtiva adiada, da especialização internacional em produtos de baixo valor acrescentado, da subqualificação de quase 2 milhões de trabalhadores portugueses face às capacidades daqueles com os quais têm de concorrer diariamente.

O défice de produtividade face ao nível europeu mantém-se. A requalificação dos portugueses é um processo esforçado e contínuo, que carece de muitos mais anos para poder dar frutos na qualidade do trabalho prestado. Para criar mais riqueza e mais coesão social, a nação tem de encarar as medidas difíceis que a habilitem a enfrentar melhor a próxima crise cíclica, a de 2016.

DN, 11-7-2008
 
Até a classe média se queixa que já sobra mês

RUDOLFO REBÊLO

Portugueses entre os mais pessimistas da Europa a 27

Mais de dois terços dos portugueses afirma que têm dificuldades para pagar contas no final do mês e a classe média já foi atingida em cheio pela crise, de acordo com inquérito, realizado esta Primavera e ontem divulgado pela Comissão Europeia. Os portugueses estão entre os mais pessimistas da União Europeia a 27 e a maioria considera que perdeu poder de compra nos últimos cinco anos e teme pelo futuro.

O fantasma do desemprego, a inflação elevada e a situação no trabalho está a inquietar a maioria dos portugueses. A maioria já chega ao fim do mês sem dinheiro e acresce que uma parte substancial dos portugueses (41%) considera que a sua "situação financeira pessoal" ainda irá piorar durante o próximo ano. Na Europa, retrato financeiro doméstico pior, só mesmo na Bulgária.

O relatório, que foi efectuado em Abril, no dia em que o Governo anunciou a baixa do IVA de 21% para 20%, afirma que 25% dos portugueses teme pelo futuro do seu emprego. Ou seja, em plena crise, os portugueses têm a percepção de que aumentou a insegurança e a precariedade do seu emprego.

O inquérito da Primavera é demolidor e coloca os portugueses como os mais pessimistas de entre os 27 países da órbita do euro, apenas atrás da Hungria e da Bulgária. Contas feitas, metade do país está "com dor de alma". É que 38% dos portugueses confessa-se "não muito satisfeitos" com a vida que levam. Outros 10% afirmam-se "nada satisfeitos", enquanto 48% dizem-se "satisfeitos".

O pessimismo está a alastrar a velocidades preocupantes, existindo "cada vez mais portugueses que se dizem insatisfeitos com a vida", como realça o relatório da Comissão Europeia. Em relação a inquérito semelhante, realizado no Outono de 2007, a percentagem de "insatisfeitos" aumentou de 35% para 38%.

As perspectivas para o futuro podem explicar parte do pessimismo, que vários inquéritos mensais - da Comissão Europeia - já anteciparam. O relatório de ontem confirma que apenas 15% dos portugueses acredita que "a sua qualidade de vida irá melhorar" nos próximos 12 meses. "É o valor mais baixo de todos os encontrados para os 27 Estados membros", revela o relatório.

O país caminha na direcção certa para resolver os principais problemas - desde a questão energética, crime, pensões, até ao desemprego? A maioria da população portuguesa não tem dúvidas, responde pela negativa e diz que o país "caminha na direcção errada".

Os portugueses estão mais preocupados com temas de natureza económica do que os europeus. Enquanto o típico cidadão europeu está preocupado com a segurança, ambiente, terrorismo, crime e energia; os portugueses pensam como podem lidar com o desemprego, inflação e a situação económica.

DN, 12-7-2008
 
O País está infeliz. Olha para o espelho e não gosta do que vê. E o mais grave é que Portugal tem mesmo razões para isso. O Eurobarómetro, da Comissão Europeia, revela que dois em cada três portugueses têm dificuldade em esticar o dinheiro até ao final do mês. Na UE a 27 só mesmo os búlgaros têm mais dificuldade do que nós em pagar as contas. Até os romenos já estão à nossa frente.

O desânimo espelhado neste inquérito não espanta quando se sabe que um milhão de portugueses vive com menos de dez euros por dia. Bruxelas calcula em 50% o risco de um desempregado português acabar na pobreza (na Alemanha esse risco é de 20%), o que também não surpreende quando se sabe que 44% dos desempregados não têm qualquer subsídio.

Temos os piores desempenhos da UE no que toca a abandono escolar e taxa de conclusão do secundário. As estatísticas que colocam Portugal, a par da Grécia, no topo do ranking dos países onde os jovens demoram mais tempo a arranjar emprego, talvez ajude a explicar as elevadas taxas de insucesso e abandono.

Os 60 mil carros que deixaram de entrar diariamente em Lisboa são uma face desta crise. A outra são os 22 milhões de euros que os portugueses levantam todos os dias das suas poupanças em fundos de investimento e PPR.

O País está deprimido. É da responsabilidade do Governo administrar uma injecção de adrenalina na economia, para nos devolver o orgulho de ser português que se sentiu em 1998, o ano da Expo, e em 2004, o ano do Euro.

DN, 13-7-2008
 
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